Nem próximo de um martírio...

O MARTÍRIO DE JOANA D'ARC -  Carl Theodor Dreyer

“A vida é a imitação de algo essencial, com o qual a arte nos põe em contato.”  Antonin Artaud

          Assistir a este filme não é nem um pouquinho próximo de um martírio. Mas também não é um filme assim para botar em uma noite para assistir na cama... Trata-se de um filme mudo, de 1h e 22min., que eu não indicaria a quem não gosta de expandir o conhecimento cinematográfico.  No mínimo tem que ter curiosidade em ver estas obras-primas do cinema. Isto mesmo OBRA-PRIMA. Este filme é simplesmente FABULOSO.  Tudo nele é incrível.  O fato de ser baseado no livro verdadeiro do julgamento de Joana D'Arc deixa o filme mais instigante...
Assim que acabei de assistir ao filme ficou um vazio em mim. Algo faltando. Pesquisei um pouco do aspecto histórico da vida de Joana D'Arc. Descobri também várias curiosidades sobre o filme importantes. Dentre as curiosidades descobri que Dreyer (dinamarquês) submeteu Falconetti (a atriz) ao isolamento total durante as filmagens. Aplicou métodos como diretor que a traumatizaram. Nunca mais ela fez nada para cinema. Quem também dirigiu um filme assim foi outro dinamarquês; Lars Von Trier, traumatizou Nicole Kidman em Dogville. Já esta atriz preferiu nunca mais trabalhar com o Diretor.
Mas nada fazia passar este vazio.  Foi aí que me dei conta de que não tinha jeito, não tinha como fugir desta sensação. O filme era isso.  Esse vazio é o que acontece quando vemos um filme destes hoje em dia. Por estarmos acostumados com um estilo de filme mais explícito esquecemo-nos de um cinema assim, igualmente sutil e arrebatador.  Isto me lembra algo que Hegel diz sobre a poesia; algo sobre a POESIA fazer RESSOAR.
 “[...] a arte da poesia, tal como a música, contém o princípio do perceber-se a si do interior enquanto interior o qual escapa a arquitetura, à escultura e à pintura; e por outro lado, expande-se no campo do representar interior, do intuir e do sentir [...] o seu princípio [da poesia] é em geral o da espiritualidade, que não se volta mais para fora da matéria pesada como tal, a fim de formá-la simbolicamente como a arquitetura, em um entorno análogo do interior, ou, tal como a escultura, configurar a forma natural pertencente ao espírito na matéria real como exterioridade espacial, mas expressa imediatamente para o espírito com todas as suas concepções  da fantasia  e  da arte, sem ressaltá-las visível e corporalmente para a intuição exterior.”   [1].
                Eis que com esta passagem, Teresa Nazar nos leva a este caráter da poesia – segundo  Hegel .  Sendo então a poesia como “a arte de fazer ressoar, melodicamente, a experiência interior do vazio, impossível parcialmente abordável com o recurso da fantasia, transfiguração de um interior que se mostra para além de um audível ideal.”[2] Sendo que para Hegel este poético pode estar em qual manifestação a obra de arte assumir. Enfim, porque não então no cinema? Cinema poesia. Este filme com certeza se encaixa nesta ambientação conceitual. Assim como para o já supra citado Artaud “A vida é a imitação de algo essencial, com o qual a arte nos põe em contato.” 
                Além disso, algo que me chamou bastante atenção foi a questão da linguagem não-verbal.  Em diversas partes para as falas não existem cartelas - ou mesmo nas em que existe uma cartela - o fato é que as encenações, as expressões dos atores são MAGNÍFICAS. A força a encenação. Longínquo tempo em que o teatro ainda não havia sido substituído pelo espetáculo. Inclusive a atriz  Renée Maria Falconetti era uma atriz de teatro.  A melhor Joana D'Arc que eu já vi. Isso sem contar no fato de que podemos ver Antonin Artaud (em atuação antes de ir para o Hospício tido como louco).
                A isso somamos o fato de que este filme é uma aula de planos e enquadramentos. Imagina alguém em 1928 fazendo enquadramentos como aquele de cabeça para baixo. E aquele e que os Inquisidores saem da diagonal do Quadro. Lindos planos em close sem ficar com aquele clima novela. Como é simples e ao mesmo tempo extremamente eficiente inscrever os Inquisidores sempre em contra-plongée.
                Por essas e outras é que este FILME é uma OBRA DE ARTE imperdível para quem quiser se deixar levar pela belíssima escrita cinematográfica de Dreyer.  Em mim Joana Dar’c  desde então ainda ressoa...                 
                    
                                                                                          BARBARA MASSOT


[1] In: HEGEL, George W. F. Cursos de estética. São Paulo: Ed. USP, 1999. Vol.1, p. 12-13.
[2] In: NAZAR, Teresa Palazzo. O Sujeito e Seu Texto - psicanálise, arte e  filosofia - editor Jorge Nazar - Rio de Janeiro : Cia. de Freud, 2009. pg. 58-59

Um comentário:

  1. Barbara,

    Após "escutar" você, em seu ato de escrever,posso reconhecer,o que Clarice Lispector deixou-nos:
    "Minha pergunta, se havia,não era:"quem sou",mas "entre quais" eu sou.
    Você é um desses quais,diante dos quais eu sou...
    Beijos,
    Ana Lucia Massot

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